Latif Abrão Jr., Presidente do Conselho Consultivo da ADVB e Antônio Saraiva, Presidente da Confederação Empresarial de Portugal

A foto acima sugere o confronto Brasil X Portugal. Porém o que está em pauta é o combate à pandemia do novo Coronavírus, que coloca em campo governantes e governados de todas as nações. A defesa da vida arbitra as regras do jogo. Sem salvadores da pátria capazes de dar conta do ataque virulento adversário, a força da união se impõe como a principal medida de defesa. Porém, não faz sentido jogar na retranca o tempo todo.

Como nenhum time ganha o campeonato sem vitórias, ADVB News foi ao encontro (virtual) de dois craques para saber como analisam as jogadas. António Saraiva, presidente da Confederação Empresarial de Portugal, e Latif Abrão Jr, presidente do Conselho Consultivo da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (entidades coirmãs e parcerias), apresentaram caminhos que visam ajudar nossa torcida a levantar a taça do bem-estar coletivo.

Os dois reconheceram o grande poder destrutivo do adversário comum e consideraram que a melhor estratégia é manter o espírito de união. E focar na cobertura do setor produtivo, com apoio reforçado a quem mais gera postos de trabalho. Do contrário, a derrota será acachapante.

A seguir, o placar pontua 0 (péssimo), 1 (ruim), 2 (sofrível), 3 (razoável), 4 (bom) e 5 (exemplar) o desempenho de portugueses e brasileiros, na avaliação de aspectos táticos:     

Medidas de combate à crise da saúde

Desempenho tático dos jogadores Portugal Brasil
Tempo para planejar e adotar medidas de contenção à pandemia 3 4
Consciência de que estamos longe de vencer ataques da Covid-19 5 3
Rigor no respeito ao isolamento social e às demais regras sanitárias 5 2
Apoio governamental às MEIs e PME de curto, médio e longo prazo 1 1
Cobertura das economias nacionais mais fortes às mais fragilizadas 0 0
Taxa de juros bancários reduzidas para os empréstimos às PJs e PFs 3 1
Coesão política governamental entre todas as instâncias de poder 4 0
Blindagem contra a “ajuda” feita por oportunistas e aproveitadores 3 3
Qualidade da Comunicação Social na adoção de medidas sanitárias   4 4
Iniciativas solidárias protagonizadas pela sociedade civil organizada 4 3


Nesta competição, que a morte de milhares de pessoas, acometidas pela pandemia do Século, nos ensine navegar a bordo da mesma caravela, rumo ao descobrimento de um novo mundo.  

Vídeo Latif Abraão Jr.

Confira, a seguir, a entrevista com António Saraiva.

CIP – Confederação Empresarial de Portugal

Presidente António Saraiva

  1. A que o Sr. atribui o sucesso português na contenção do Covid-19?

António Saraiva – De fato, Portugal tem sido apontado como um bom exemplo nos resultados que obteve, até agora, na contenção da propagação do Covid-19. Creio que haverá várias razões que contribuem para esses resultados. Algum atraso na chegada do vírus, relativamente a outros países europeus, facilitou a tomada de medidas de contenção com um pouco mais de tempo. Além disso, houve uma adesão muito forte da população às medidas que foram decididas.

No entanto, Portugal ainda está longe de vencer a guerra contra Covid-19.

  • Como o povo recebeu as instruções para o isolamento social?

António Saraiva – De uma forma geral, os portugueses compreenderam a gravidade da situação e aceitaram com disciplina e civismo as regras que foram decretadas. Por outro lado, esta aceitação levou a que as regras (e a forma como são impostas) não tivessem de ser tão radicais como noutros países.

  • Qual o papel do governo na condução, ainda em curso, desse processo?

António Saraiva – O papel do Governo foi determinante, mas de uma forma geral, julgo que toda a sociedade reagiu de uma forma responsável, acatando ou mesmo antecipando as medidas de prevenção que foram tomadas.

  • Superado o ápice da pandemia, como Portugal planeja a retomada?

António Saraiva – Esse é um processo ainda em estudo, neste momento, quer quanto ao calendário e ritmo do levantamento das restrições, quer quanto às medidas de natureza econômica que serão necessárias para sustentar a recuperação.

Qual o papel das empresas associadas à CIP no esforço de contenção do Covid-19?

António Saraiva – Também por parte das empresas assistimos a um comportamento responsável. As medidas decretadas pelo Governo foram acatadas, apesar do enorme custo que representam, sobretudo para as empresas dos setores que tiveram de encerrar temporariamente a sua atividade. Praticamente não se registram casos de descumprimento. Por outro lado, há que salientar o esforço de muitas empresas no sentido de reorientar a sua capacidade produtiva para bens e serviços necessários à resposta do sistema de saúde à situação de pandemia que vivemos.

  • Como funcionou e funciona o conjunto de mídias destinadas a alertar e orientar a população?

António Saraiva – A Comunicação Social tem feito um trabalho notável nesse sentido.

  • O Brasil, país coirmão de Portugal, enfrenta problemas sérios nesta fase de disseminação do coronavírus. Recomendaria algumas atitudes aos governantes do país?

António Saraiva – As mesmas que tive oportunidade de recomendar no meu país às lideranças das organizações, sejam governamentais ou da sociedade civil: Lucidez. Rapidez, flexibilidade e adaptabilidade nas respostas. Solidariedade, também.

  • Impactos econômicos: já é possível vislumbrar, para Portugal e para o mundo, providências essenciais para se enfrentar o ‘day after’?

António Saraiva – O impacto econômico desta crise, profundamente disruptiva, é extremamente preocupante.

Tendo em conta que a maior parte das PME não tem liquidez para aguentar mais de um mês sem entrada de receitas, a questão que se coloca é: quantas PME de inúmeros setores de atividade, encerradas total ou parcialmente, por imposição legal, pela ausência de trabalhadores ou simplesmente por falta de procura ou de abastecimento, irão resistir?

Foram tomadas diversas medidas que classificaria de emergência no apoio às empresas.

A CIP tem mantido um diálogo muito próximo com o Governo, no sentido do ajuste dessas medidas às necessidades imediatas das empresas, quer na sua dimensão quer na sua abrangência, quer ainda na forma como chegam ao terreno.

No entanto, não escondemos que, sendo positivas, estas medidas não insuficientes e não são sustentáveis. De fato, muitas dessas medidas têm em comum o fato de implicarem, ou o aumento do endividamento, ou encargos mais pesados num futuro relativamente próximo.

Ora as empresas não precisam de mais endividamento, mas antes de tesouraria que lhes permita fazer face aos compromissos no curto prazo, recuperar no médio prazo e manter os empregos em termos duradouros. Há que inovar na injeção direta de fundos nas empresas, para que possam subsistir e manter empregos.

Pretendemos, por isso, alterar o paradigma face às medidas de apoio à economia que têm vindo a ser tomadas. Esta ideia está subjacente ao plano que apresentamos ao Governo, com vista à recuperação econômica, e que visa garantir a manutenção dos postos de trabalho e criar os mecanismos para que as empresas possam retomar a atividade logo que possível.

No âmbito da União Europeia, temos sido muito críticos.

É certo que o Banco Central Europeu tem respondido com eficácia, no que tange à política monetária. Prova-o o fato de as taxas de juro, no caso português, não terem ido além de 1%, nos mercados financeiros internacionais.

Mas não basta esta atuação isolada do BCE para garantir que os países europeus – e particularmente os mais vulneráveis, como Portugal – possam responder a esta crise com força suficiente.

É preciso que os Estados se apoiem reciprocamente, partilhando riscos, não deixando margem para que os mercados tomem como alvo os elos mais fracos. Isso implica novos instrumentos que, até agora, alguns (poucos) líderes se recusam a aceitar, travando a atuação conjunta de todos os outros.

  • Acrescente, por gentileza, eventuais conteúdos relevantes para os leitores do ADVB News, sobre o affair Covid-19, não contemplados pelas perguntas.

António Saraiva – Gostaria de deixar uma certeza, que é válida tanto em Portugal como no Brasil ou qualquer outro país: só salvando as empresas será possível preservar o emprego. Este é um objetivo para o qual todos somos mobilizados, todos, mas mesmo todos, independentemente dos nossos interesses específicos e das nossas ideologias.

Sobre a ADVB – Em 2020, a ADVB® completará 64 anos e é uma referência para a gestão empresarial no país, ao oferecer opções ricas e diversas para o relacionamento e aperfeiçoamento profissional de quem atua nas áreas de vendas e marketing e na direção das empresas. Cursos, palestras, fóruns, debates e eventos de premiação reúnem personalidades públicas e do mundo corporativo, propiciando ferramentas que auxiliam no desenvolvimento de estratégias de gestão das organizações.