Criar uma rotina positiva, em vez de ficar de pijama

Docente dos cursos de graduação e orientadora da Pós Graduação do Instituto de Psicologia da USP, a professora e livre docente, Leila Salomão Tardivo, Coordendora do Laboratório de Saúde Mental e Psicologia Clínica Social do IPUSP (APOIAR), concede entrevista à ADVB
News. Na pauta, os impactos do isolamento social no contexto da pandemia Covid-19.

ADVB News: A instalação do Covid-19 no mundo todo implica em mudanças de hábitos, atividades e comportamentos. Qual o ponto essencial para esse processo ser bem sucedido?

Profª Leila: Em se tratando da grande maioria, que tem de se cuidar para não adoecer, para não se contagiar nem contagiar os outros, é necessário haver mudanças, de modo a aceitar a realidade com mais tranquilidade. E também acreditar que as medidas são suficientes, que vão dar certo; manter a força e a esperança. Ao mesmo tempo, ter atitudes que respondam a essa necessidade atual. Embora difícil, as pessoas mais velhas precisam ficar em casa. Criar uma rotina positiva, em vez de ficar de pijama o dia inteiro. Fazer o que cada um gosta de fazer, em casa. Interagir com as crianças e adolescentes, para que eles entendam melhor o que está acontecendo. Aceitação, paciência e esperança são muito importantes nesse processo.

ADVB News: É possível extrair benefícios do isolamento compulsório?

Profª Leila: Acredito que sim. O fato é que as pessoas têm que viver a realidade. Costumo dizer, amiúde, que o único espaço da saúde mental é o da realidade. Negar e minimizar a situação, seguramente, não é bom. Sugiro aproveitar o tempo para conviver mais e melhor com as pessoas de casa. E no caso das pessoas que vivem sós, a conexão online com o mundo é uma forma de ficarem consigo mesmas numa perspectiva de compartilhar a experiência. Exercitar a solidariedade, o cuidado e o respeito àqueles que estão vivendo a mesma experiência de reclusão. Ou seja: encontrar formas de estar junto na ausência física.

ADVB News: Home-office: como compensar o distanciamento presencial e garantir interatividade com os demais colaboradores da empresa?

Profª Leila: Acredito que as redes sociais se apresentam como ótima alternativa. Antes da pandemia, muitos de nós criticávamos a atitude isolacionista dos mais jovens, em relação ao uso intensivo da comunicação online. Hoje, as mídias sociais ganham papel relevante para ajudar na superação dos efeitos da quarentena. Ajudam as pessoas a se manterem juntas, sem a presença física. E permitem, inclusive, que se trabalhe. Eu, por exemplo, dou orientações escrevo trabalhos online. Por um bem maior, fazemos o que é preciso ser feito.

ADVB News: Qual o papel das lideranças e chefias para as atividades home-office compulsórias se tornarem menos penosas e frustrantes?

Profª Leila: Na verdade, não tem por que serem frustrantes. Esse é um momento do real e vamos fazer as coisas com seriedade, responsabilidade e dar conta das tarefas que

temos. E da realidade que se impõe. O grande mestre Sigmund Freud ensina que “ser saudável, ter saúde, é ser capaz de amar e trabalhar”. Nesse sentido, amar, no momento, é poder compartilhar com as pessoas a dor, as dificuldades e produzir. Para quem está produzindo, não será tão frustrante. Importante que as chefias compreendam esse momento e ajudem o colaborador a se manter produtivo.

Professoras Albertina Duarte Takiuti e Leila Salomão Tardivo, divulgam o livro Maternidade e Adolescência – Histórias de Adolescentes Grávidas e Mães do Brasil, Portugal e Guiné.

ADVB News: Como redisciplinar rotinas, em um contexto de mobilidade restrita e sem tempo definido para voltar à normalidade?

Profª Leila: É recomendável criar uma rotina que torne o dia produtivo, valioso, que ajude o tempo passar. Fundamental saber esperar. A rigor, em qualquer situação, nós não temos o controle do tempo. É preciso tomar muito cuidado com as fake news, com as mentiras. E em casa, não se deve ficar falando em coronavírus o tempo todo. Há outros assuntos, coisas novas a aprender, ler. Suportar o não saber, manter a vida funcionando do jeito que dá. Afinal, tudo passa.

ADVB News: O que pode ajudar as pessoas a não se sentirem deprimidas e infelizes?

Profª Leila: Muito importante a pessoa não se deixar levar por pensamentos negativos. E viver a realidade tal como ela se apresenta. Há profissionais se dedicando ao máximo, alguns estressados na lida com o problema. E emociona ver as pessoas batendo palmas para os profissionais da saúde. Muitos deles, já aposentados, estão se oferecendo para o trabalho voluntário. Portanto, há muitas lições para se aprender. E se a pessoa está muito deprimida e angustiada, deve pedir ajuda. Um telefonema, muitas vezes, pode ser valioso para minorar o sofrimento psíquico.

ADVB News: A psicologia dispõe de cases análogos, na história, ao que se passa hoje?

Profª Leila: Não só a Psicologia, a Medicina, Psiquiatria e a Sociologia todas estão enfrentando uma situação sem precedents iguais a essa.. Situações sociais imperiosas nos colocam num desafio grande na vida, como indivíduos e como sociedade. Exemplo disso foram as guerras mundiais, no século passado, que produziram grande sofrimento social. Também os casos de ditaduras, do desrespeito aos direitos humanos. Tivemos o advento do HIV, da meningite, mas nada comparado à severidade e a amplitude do coronavírus. A rigor, estamos em guerra, também. É uma guerra que a gente vai vencer se unindo – e não disputando. Os grandes líderes são e serão aqueles que estão lá na linha de frente, inclusive se arriscando a adoecer. Há aqueles se dedicando em tempo integral a descobrir a vacina e os medicamentos para conter o Covid-19. Se nos orientaram a ficar em casa, façamos isso, fiquemos em casa.

ADVB News: Autoestima e estima pelo outro: como estimular comportamentos que expressem responsabilidade social?

Profª Leila: Se eu estou cuidando de mim para ficar bem, eu fico em condições de olhar para o outro. O que não dá, mesmo, é ficar olhando para o próprio umbigo. A ameaça do vírus é ‘democrática’, ninguém escapa do risco. E temos de combatê-lo com atitudes democráticas mesmo. Com o interesse pelo outro, o cuidado com o outro. Este pode estar na sua casa, na sua vizinhança… E isso ajuda. A gente se depara, no trabalho profissional, com casos de adolescentes entediados, que não veem sentido na vida. Ora, o sentido da vida cada um tem de encontrar o seu. Mas o mais importante é o dom de viver, de cuidar-se e cuidar do outro.

APOIAR realiza atividades de formação Liga Solidária na USP

ADVB News: Qual a percepção da comunidade de especialistas em Psicologia, da USP, em relação ao impacto do isolamento presente e consequências futuras?

Profª Leila: Dentro da Psicologia da USP, há uma preocupação muito grande com a saúde mental e emocional das pessoas. Dentro da própria comunidade da USP, há um olhar para os nossos estudantes, um olhar para os nossos profissionais e para o nosso entorno. Não estamos intramuros. Estamos interessados em ajudar, em contribuir, em compartilhar. Temos equipes de apoio aos profissionais. Também precisamos estar atentos, em especial, aos adolescentes, que podem ficar raivosos quando juntos por muito tempo, em família. Pessoas que surtam no supermercado, por não encontrarem álcool em gel… Raiva, briga, violência são manifestações que precisam ser compreendidas e  contidas de alguma forma, se forem extremas. Assim como a tristeza, o abatimento, o isolamento. Ao perceber que seus familiares, seus conhecidos estão assim, não se deve hesitar em pedir ajuda. Existem vários grupos oferecendo atendimento online. A esperança não pode morrer. Estamos aprendendo a nos humanizar, que a solidariedade talvez seja a principal arma e saída desta guerra. Entre outros que existem na USP, deixo aqui o e-mail apoiar@usp.br, do grupo que coordeno, para eventual necessidade de ajuda, para atenção voluntária e on line.

Os interessados em adquirir o livro “Maternidade e Adolescência – Histórias de Adolescentes Grávidas e Mães do Brasil, Portugal e Guiné”, deve entrar em contato com pelo e-mail maternidade.adolescencia.hist@gmail.com

Em meio a pandemia de Covid-19, saber o que acontece com os sentimentos das pessoas neste momento é de grande contribuição para a Psicologia. Por isso, a professora Leila Salomão Tardivo, em nome do Laboratório de Saúde Mental e Clínica Social do Instituto de Psicologia da USP, convida você, leitor e leitora, com idade acima de 18 anos, a preencher o formulário de pesquisa, cujo título é “Sentimentos e atitudes no isolamento social em período da pandemia por coronavírus”. Sua participação é muito importante. Se você não está nesta faixa etária, por favor, ajude a divulgar ao público-alvo.

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Sobre a ADVB – Em 2020, a ADVB® completará 64 anos e é uma referência para a gestão empresarial no país, ao oferecer opções ricas e diversas para o relacionamento e aperfeiçoamento profissional de quem atua nas áreas de vendas e marketing e na direção das empresas. Cursos, palestras, fóruns, debates e eventos de premiação reúnem personalidades públicas e do mundo corporativo, propiciando ferramentas que auxiliam no desenvolvimento de estratégias de gestão das organizações.